sábado, 6 de setembro de 2008

13º Dia de Viagem (15/01/2005)

Planejado: ?

Ocorrido
Ubatuba - Ilhabela
Hospedagem: nossa casa
Distância no dia – 90,11km
Distância acumulada – 751,43km
Média do dia: 21,3km/h
Máxima do dia: 59,1km/h
Tempo de pedal: 4:13h

Último dia, quem diria? Eu mesmo não, pois imaginava fazer a viagem apenas até Paraty. Confesso que a frustração seria grande se não completasse o percurso até a Ilha. Ficariam faltando o gosto da chegada, o retorno ao ponto de partida. Seria como um ciclo quebrado, uma realização não realizada. No entanto estava ali, com meus companheiros e meu orgulho por estar completando esse sonho.
Acordamos sem estar cansados. Na verdade as pernas estavam doloridas, mas a motivação era enorme. Porém... mais de 90km pela frente, um sol radiante e muito quente e um trânsito de sábado de verão nos aguardavam.
O trânsito realmente foi o fator que mais preocupou. Muitos carros e pessoas. Os carros dominavam as faixas do sentido contrário, principalmente, mas tínhamos que ficar atentos com mulheres carregando cadeiras de praia, homens barrigudos com isopores cheios de cerveja e crianças já vestidas em suas bóias de bichinhos. Felizmente nenhum incidente. Eu e o Edu pedalávamos juntos e o Sobral fazia o seu próprio ritmo.
Cruzamos as praias ao sul de Ubatuba, cada uma separada por sua serrinha. Sentíamos as pernas como se fosse o último dia, mas nossa motivação em chegar era incrível. Incrível também foi a hora em que chegamos em Caraguá. Ainda era manhã. Ao pararmos para esperar o Sobral e reforçarmos o protetor solar, vivemos uma cena, no mínimo, inusitada. Havíamos aberto uns 10 minutos dele e paramos na pista no sentido contrário. Haviam dois motivos para isso: a sombra de uma bela e frondosa árvore e a facilidade para acessar a ciclovia de Caraguá. Nos preocupamos em estarmos bem visíveis para que o Sobral não passasse reto por nós. Quando o avistarmos começamos a abanar os braços e assobiar. Ele se aproximava e nada de atravessar a pista. Pensávamos que não havia nos visto, quando fez um sinal com a mão, indicando o contrário. No entanto não parava de pedalar nem mudava a trajetória. Passou pelo ponto em que estávamos. Imaginamos que ele, prudente, fosse seguir até uns 200m à frente para contornar a rotatória que existe ali. Mas não fez e foi embora... seguiu reto pela estrada. Eu e o Edu ficamos sem saber o que fazer. Pesamos em ir atrás dele, mas por ali o caminho era mais longo e pedalar na ciclovia era muito mais tranqüilo que naquele trânsito. Liguei meu celular para qualquer emergência e fizemos o caminho combinado, pela ciclovia. Paramos no mesmo posto BR que havíamos parado há 12 dias. Tomamos um Gatorade, demos uma esticada nas pernas e nas costas e seguimos. Ainda não nos conformávamos com o Sobral ter seguido reto e sozinho.
Pegamos, então o último trecho de estrada. Bastante vendo contrário, mas muita força para vencê-lo. São Sebastião chegava com duas serrinhas que vencemos com relativa facilidade. Ao passarmos por um posto, já próximo ao centro da cidade reencontramos o Sobral. Ficamos um pouco bravos com ele. Estávamos entrando nos últimos quilômetros da viagem e estávamos separados. Isso não fazia sentido algum. Ao nos aproximarmos da balsa o Edu acelerou o ritmo e, da mesmo forma que repreendemos o Sobral, repreendemos o Edu. “Vamos juntos agora!” não lembro se eu ou o Sobral soltou a frase. Ele caiu na real.
Estávamos todos bastante emocionados. Lá pelas 13h estávamos encostando nossas três bikes na fila da balsa. Uma foto tirada por uma pessoa que esperava pelo transporte como nós registrou esse momento inesquecível.
Dois quilômetros da balsa até em casa. A Dé estava lá e não sabia a hora que chegaríamos. Certamente adiantamos muito. Toquei o sino da campainha e simulei a voz do caseiro.
Ao abrir o portão se deparou com três caras e suas bikes. Três caras que não eram os mesmos que haviam partido daquele local há 13 dias. Caras que extrapolaram seus obstáculos físicos, mentais e psicológicos. Que conseguiram, apesar das diferenças entre si, conviver harmoniosamente, que aprenderam a respeitar a si próprios e aos demais. Que conviveram com o frio, o calor, com tonturas e dores. Porém, ela os conhecia muito bem. Sabia de tudo isso. Era também mudada. Finalmente o grupo estava completo outra vez.
Nos abraçamos e rimos muito das histórias que contamos, certos de que num dia possamos experimentar novamente o vento em nossos rostos, os guidões sob nossas mãos, o sol sobre nossas cabeças, os pedais sob nossos pés, um ao lado do outro e a liberdade à volta de todos nós.

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