quinta-feira, 1 de outubro de 2009

sábado, 6 de setembro de 2008

A viagem descrita nesse blog foi realizada em janeiro de 2005. Não tenho a pretensão de publicá-lo como um guia, porém, sinta-se a vontade para entrar em contato a respeito de qualquer coisa sobre a viagem que fizemos. É, na verdade, mais um diário que um roteiro.
Foi a primeira ciclo viagem para meus companheiros de pedal e apenas a segunda que realizei. Éramos bem inexperientes, mas no final das contas acho que nos saímos bem.
Por falar em companheiros de pedal, apresento-os:
Debora Perillo Samori, a Dé: minha irmã, pedagoga, ciclista esporádica. Nunca foi sedentária, mas a bike definitivamente não é sua principal atividade física. Na época da viagem era adepta da natação.
Eduardo Rente, o Edu: ex-cunhado, professor de educação física. Ciclista e nadador era quem tinha o melhor preparo físico entre nós.
Alexandre Sobral, o Sobral: biólogo, amigo fiel, encarou essa viagem como um grande desafio a ser vencido. Na época sua principal atividade física era levantamento de copos e latas de cerveja.
Eu, Fabio Samori: biólogo, mas profissionalmente não atuo como tal. Atualmente pedalo bastante e, nunca fui sedentário,porém, nunca fui também o maior esportista do mundo. Na época da viagem pedalava e nadava.
Espero muito que curtam minhas viagens e palavras. ;)

Para saber mais a meu respeito ou entrar em contato, visite meu blog pessoal: http://fasamori.blog.terra.com.br

1º Dia de Viagem (dia 03/01/2005)

Planejado
Ilhabela – Maranduba
Hospedagem: camping
Distância: 61km


Ocorrido
Ilhabela – Albergue da Juventude de Ubatuba
Hospedagem: Albergue da Juventude Cora Coralina R$ 18,00 p/ pessoa
Distância do dia – 92,8km
Distância acumulada – 92,8km
Média do dia: 17,9km/h
Máxima do dia: 58,1km/h
Tempo de pedal: 5:09h

Seis horas da manhã e estávamos de pé. A noite não tinha sido uma verdadeira maravilha. O colchão e a ansiedade, não sei porque, não contribuíram para um sono tranqüilo.
Tomamos um café e nos despedimos da mãe, avó, cachorros e emocionado, da namorada, Juliana, que preferiu não ir conosco.
Uma grande emoção tomava conta de nós. Balsa até São Sebastião e a estrada estava toda ali, pronta para nós quatro e nossas bikes.
Pegando a Rio-Santos do centro de São Sebastião e seguindo sentido Rio de Janeiro, em pouco tempo e pequena distância já se encara duas serrinhas. Na segunda, mais alta, um fato que nos fez acordar do “transe” que nos entorpecia através da emoção: o Sobral, numa freada brusca na descida fez com que o Edu batesse na traseira de sua bike. Estávamos a uns 40, 45km/h e um tombo causaria estrago. Felizmente nada aconteceu, apenas, como mencionei, acordamos. Pedalamos com muita facilidade 31km até chegarmos ao centro de Caraguatatuba. Para chegarmos até lá, numa determinada altura da Rio-Santos, entramos à direita e pegamos a ciclovia que beira as praias daquela cidade. Muito boa para se pedalar, um visual muito melhor que o da estrada naquele trecho e, de quebra, um corte de caminho. Paramos num posto BR que tem bons banheiros, loja de conveniência e sombra. Esse trecho seria a metade do imaginado para o dia inteiro, onde esperávamos chegar cerca de 11h da manhã. Eram, no entanto, 9. Nove horas e quatro minutos, para ser mais preciso. Estávamos todos muito bem. Pedal na estrada, então. Seguimos pela ciclovia até chegarmos próximos a um morro, onde notamos que, se continuássemos por ela, nos afastaríamos muito da estrada. Tomamos novamente a Rio-Santos e encaramos a primeira serrinha mais invocada. Com a terceira faixa o acostamento foi suprimido, então, tínhamos que pedalar pela faixa da direita. É um trecho movimentado e tivemos que manter a atenção acima do normal. Começamos a passar por diversas praias e suas entradas. Em algumas o trânsito de carros e pedestres/banhistas era muito intenso. Os carros chegavam a parar no engarrafamento. Que felicidade estar de bike. Acho que os motoristas irritados morriam de inveja a nos ver passar com tanta facilidade pelo congestionamento... Fácil, fácil chegamos em Maranduba que, na verdade, era um desses lugares lotados. Nem acreditávamos que já tínhamos chegado. Não eram nem 11h da manhã, horário limite, estipulado por nós, para pedalar pela manhã. O lugar era feio, lotado, não era legal. Seguimos pedalando mais uns 5km e chegamos à praia de Lagoinha. O Sol já incomodava e estávamos precisando parar. Fomos, então, verificar hospedagem. Pousadas caras e os campings que eram um verdadeiro absurdo (CCB), não tinham uma infra-estrutura legal e ficavam às margens da estrada.
Uma conversinha e decidimos ficar ali, na Lagoinha até as três da tarde. Um tempo para almoçarmos, ou comermos um desejado açaí e para o sol dar uma aliviada.
Às margens da estrada havia uma placa grande indicando o que queríamos: açaí, lanches naturais, sucos... maravilha. Francesco era o nome do local. Ao chegar, notamos que estava fechado, mas conseguíamos ver por uma porta de vidro e madeira que havia gente lá dentro. Fomos perguntar sobre a abertura do local: meio-dia, respondeu a moça. Eram 11:45h. Ao menos nos deixaram sentar nas cadeiras que ficavam em uma grande varanda. Nem os banheiros estavam abertos, mas após pedirmos, abriram. Esperamos, então, o local abrir. Esperamos cerca de intermináveis, famintos e sedentos, 40 minutos. Fomos ver o que havia acontecido e nos informaram que o dono do estabelecimento estava preso no trânsito e vinha com todos os suprimentos para abastecer sua lanchonete natureba. “– Mas não tem nada, nem água?” Perguntamos indignados. “– Nada!” responderam. Num lapso de consciência eu e o Sobral atravessamos a estrada e percorremos cerca de 200m até a praia, a qual ainda nem tínhamos visto. Aquilo parecia o paraíso: barraquinhas abertas, água de coco, sucos, visual lindo. Voltamos mais do que depressa para chamar o casal que quase jazia de sede no Francesco.
Ficamos na Lagoinha até umas três e meia. O tempo havia fechado e começava a chover. Tínhamos decidido seguir e pararmos quando um dos dois chegasse primeiro: o cansaço ou o Albergue da Juventude, na estrada que desce de Taubaté. Seguimos. Fizemos algumas paradinhas ao longo da estrada. No sobe e desce da Rio-Santos existem vários mirantes que, não por coincidência, ficam nos finais das pirambas. Admirar as belas paisagens é um ótimo argumento para recuperar o fôlego.
A Dé cansou bastante, acho que mais o psicológico do que o físico. Acabamos pedalando o dobro do imaginado para esse dia. De alguma forma acho que ela se sentiu transgredindo uma regra e se preocupou pela hipótese de acumularmos cansaço para os dias seguintes. Ela reclamou bastante, mas no final das contas chegamos todos sãos e salvos no albergue.

2º Dia de Viagem (04/01/2005)

Planejado
Maranduba - Trindade
Hospedagem: camping
Distância: 50km


Ocorrido
Albergue de Ubatuba - Trindade
Hospedagem: camping R$ 10,00/ pessoa
Distância no dia – 68,4km
Distância acumulada – 161,2km
Média do dia: 15,7km/h
Máxima do dia: 60,5km/h
Tempo de pedal: 4:20h

Acordamos tarde, justificados pelo café que só era servido às 8h. Era simples, porém, muito gostoso. Suco de laranja, melancia, bolo formigueiro, café com leite e bolachinhas.
O albergue Cora Coralina em Ubatuba é gerenciado pela Terezinha, que se auto-intitula “Mãe Alberguista”. Segundo ela é um status oficial adquirido dentro da comunidade dos Albergues da Juventude. É uma pessoa extremamente solícita e que quebra vários galhos para seus hóspedes. Mantém todo o mundo na linha dura do “sujou, lavou” mas é querida por todos. Tem uma filhinha de 9 anos (na época) a Juliana, uma graça de menina, muito esperta e falante.
Remontamos os alforjes nas bikes, nos despedimos da Terezinha e da Juliana e pegamos a estrada às 10:20h! Foi a primeira vez que todos nos hospedamos em um albergue e gostamos. Provavelmente ficaremos nos próximos por onde passarmos.
O tempo nublado permitiu que seguíssemos pela estrada sem preocupação com o horário e com o Sol.
Talvez, justamente pelo tempo assim a estrada estava mais vazia que no dia anterior. A paisagem também mudou: das praias cheias de trânsito de veículos e pessoas, para vistas maravilhosas. No trecho encarado nesse dia alternavam-se longas subidas e praias maravilhosas ao longe. Paramos em um posto a uns 15km da divisa entre os estados de São Paulo e Rio de Janeiro. O Sobral não estava bem e acabamos ficando por lá por cerca de duas horas. Durante esse tempo descobrimos uma lanchonete que vendia um delicioso pão de batata. Pedi um de frango com catupiry. A Dé veio na minha cola e também pediu um. Mais um terceiro para dividirmos entre ambos foi pedido. Nessa hora ela pensou em comprar um para o Edu, que não foi à lanchonete. Não sei bem o porquê vieram dois pães no saquinho para viagem. Acabamos pagando, certos que seriam prontamente consumidos. Quando o Edu mordeu um deles, percebeu que era de calabresa. Como ele não come calabresa, a Dé guardou o pão em um de seus alforjes, mordido, babado, assim, sem pensar. Após comermos acabamos tirando um cochilo no chão de uma varanda construída na lateral de um mini-mercado que havia por lá.
Foi bom termos parado, pois as subidas da estrada daquele ponto para frente se acentuaram. A última subida da Rio-Santos neste trecho foi de matar: 3km íngremes e intermináveis onde o topo era o divisor de águas entre SP e RJ.
Ah, esqueci! No posto onde paramos fui vencido por 3 votos a 1 para que fôssemos para Trindade ao invés de Paraty. Pedalamos até lá, então. No trevo de acesso à Trindade visitamos um lindo centro de informações ambientais e turísticas. Queríamos nos informar sobre onde nos hospedarmos e principalmente sobre a tão falada “Subida do Deus me Livre”. As informações não eram das melhores: 1,5km de subida muito forte até o topo do morro e depois 5km de descida. A volta deveria ser feita pelo mesmo caminho, onde obviamente teríamos 5km de subida mais forte ainda, pois a “Deus me Livre” era no sentido Trindade – Rio Santos.
Tomamos coragem e subimos. Mil e oitocentos metros quase verticais, pedalando em pé. Não agüentei e empurrei a bike nos últimos 100m. A descida não foi menos dramática: cada bike pesando cerca de 30 ou 40 kg ficava difícil de parar, ainda mais no asfalto molhado e com areia. Após um quase acidente entre mim e o Edu, que usou os pés para parar sua bike e não me prensar entre ele e um carro parado num engarrafamento no meio da estrada, chegamos à Trindade.
Trindade é (ou foi) uma vila de pescadores. Muito freqüentada pelos hippies considerei-a a São Tomé das Letras do litoral. Pousadas improvisadas, campings em quintais, muita gente, preços salgados, poucas vagas disponíveis. Procuramos bastante uma pousada para ficar, pois chovia e acampar nessas condições é bem desanimador. Enquanto andávamos na rua principal procurando, fomos muito assediados pelos turistas e “locais” que passeavam ou estavam de bobeira por lá: “de onde vêem?”, “Para onde vão?”, “Ilhabela, caramba!! Onde fica?” Ao parar na frente de uma pousada bateu uma fome. Eis, que num ímpeto, quase mágico a Dé saca seu pão de batata recheado de calabresa e baba do Edu. Guardado em seu alforje úmido e quente por cerca de 6 horas, não é preciso detalhar muito seu estado. Mesmo assim, ela se pôs a comê-lo. Mordi um pedaço que arrepiou a alma. A calebresa passara a ter um gosto de água com gás misturada com limão. Totalmente azeda. Aconselhei-a a não comer mais ou, pelo menos, tirar a calabresa. Ela comeu tudo.
Não encontramos nenhuma pousada ou algo que se parecesse a tal e acabamos acampando. Estávamos cansados e não muito felizes por ter que armar, sob chuva, a barraca.
Arrumamos tudo como deu, saímos para comer um PF e voltamos cedo para dormir.

3º Dia de Viagem (05/01/2005)

Planejado
Trindade - Tarituba
Hospedagem: camping
Distância: 56km


Ocorrido
Trindade
Hospedagem: Pousada Marimba R$25,00/ pessoa
Distância no dia – 0,0km
Distância acumulada – 161,2km
Média do dia: -km/h
Máxima do dia: 0km/h
Tempo de pedal: 0:00h

Após uma noite inteirinha sob chuva, nosso ânimo ao acordar não era o mesmo. A barraca estava molhada por fora e por dentro, meu colchão inflável furou e tudo estava molhado e cheio de areia.
Para completar a Dé acordou passando mal. Qual seria o motivo senão o pão de batata recheado de calabresa? Teríamos um dia sem pedal, pois ela não estava em condições.
Conversamos, então, com os donos do camping onde estávamos (Camping Beira Rio), que também era pousada, pois queríamos um quarto. Porém havia dois problemas: não havia um quarto disponível e, se houvesse, seria muito caro (cerca de R$ 40,00 por pessoa). Verificamos até qual horário poderíamos manter a barraca montada por lá e saímos para tomar café da manhã e procurar uma hospedagem mais seca.
Tomamos um café pobre e servido em prestações na Pousada Brilho do Luar. Era caro também. Se alguma coisa fez valer aquele café foi a maravilhosa garçonete que nos serviu. A Juliana que não me ouça (ou leia). Saímos de lá e fomos à caça da pousada. Na primeira onde paramos, encontramos. Era justamente uma que tínhamos deixado de entrar no dia anterior. A Pousada Marimbá era razoavelmente confortável e custava R$ 25,00 por pessoa com café da manhã já incluso. Consideramos um achado!
Passamos o dia numa boa. Trindade é realmente linda, cara e cheia de malucos. Em meio a tudo isso encontrei um amigo, o Maurão, da Apel. Encontramos também dois cicloturistas, o Zé Renato e o Adriano. Estavam terminando a viagem que iniciaram em Diamantina, percorrendo 1.400km pela Estrada Real.
À noite, a Dé ainda estava meio na Rê Bordosa, então, eu o Sobral e o Edu saímos sozinhos para comer um delicioso macarrão na única casa de massas de Trindade, onde encontramos novamente o Maurão. Paulistano não nega as origens!! Voltamos cedo à pousada e fomos dormir.

4º Dia de Viagem (06/01/2005)

Planejado
Tarituba – Vila do Frade
Hospedagem: camping
Distância: 35km


Ocorrido
Trindade – Vila do Frade
Hospedagem: Corpo de Bombeiros R$ 0,00/ pessoa com café da manhã.
Distãncia no dia – 70,70km
Distância acumulada – 231,9km
Média do dia: sem registro
Máxima do dia: sem registro
Tempo de pedal: sem registro

Fui o único a dormir bem. Os outros reclamaram dos mosquitos, que não me visitaram graças ao ventilador que ficava a alguns palmos de mim, pois dormi no beliche.
Tomamos um ótimo café na pousada e tomei a iniciativa de ir atrás de um caminhão ou uma pick-up para nos levar além da “Deus me Livre”. Achei um Toyota com caçamba de madeira de um tal de Douglas. Sairia dali uns 15 minutos, mas “Dá pra me arrumar algum?” – sem problemas.
O Sobral acabou pegando uma carona em uma Saveiro que passou pela Rua Principal um pouco antes do Toyota do sr. Douglas. Assim , a Dé, o Edu e eu colocamos nossas bikes (pesadíssimas – foi a primeira vez que tivemos que levantá-las) no Toyota. “Segurem firme que o homem acelera” falou o ajudante do Duuglas. E bota acelera nisso. Haja braço e equilíbrio para manter-se junto com a bike na caçamba, que desmanchava em algumas partes. Acelerava, freava, fazia as curvas estreitas da estrada feito um doido. Buracos não existiam para ele. Tirava finas absurdas dos carros que vinham no sentido contrário. Resolvemos descer ao final da subida. Nem quisemos saber como seria a descida.
Recomeçamos nossa pedalada aí. Os 1800m de cansaço da ida eram pura adrenalina na volta. Muito bom! O mesmo trecho que subimos em 25 minutos, descemos em três.
Pegamos a Rio-Santos novamente. Novamente o tempo estava nublado – ótimo. Um trecho maravilhoso até Paraty. O acostamento não é lá essas coisas e por isso pedalamos na maior parte do tempo pela pista. Paisagens lindas iam se sucedendo a cada curva. Chegamos ao trevo de Paraty. Apesar de não entrarmos na cidade aquele lugar teve uma importância significativa: ali, daqui alguns dias iríamos completar a volta no Parque da Bocaina. Fiquei emocionado ao pensar nisso. Não sei bem ao certo o porquê, mas foi um ponto que ficou fortemente gravado na memória. A Dé queria entrar em Paraty, mas foi vencida por três votos a um. Estávamos num bom ritmo e como todos já conhecíamos a velha cidade, passamos reto por ela.
A partir do trevo de Paraty a estrada melhorou e pudemos voltar ao acostamento. A Serra da Bocaina já se fazia muito imponente à nossa esquerda e passava a ser companhia constante, como se nos desafiasse num convite para tentar sobrepô-la. As fotos, com toda certeza, não serão capazes de mostrar toda a beleza desse lugar que era registrada por nossas retinas e guardada para sempre em nossas mentes.
Tarituba era uma das inúmeras praias que ficavam, obviamente, do lado oposto à Bocaina, à direita. Sua beleza vista da estrada ao nos aproximarmos do alto de um morro e um PF de peixe com molho de camarão a R$ 5,00 nos convenceram a parar um pouco. Comemos e depois nos largamos na praia. Nadamos um pouco no mar que parecia mais uma piscina com água morna, cristalina e calma. Voltamos à estrada. Decidimos pedalar até a Vila do Frade, aproximadamente 30km dali.
Pelo caminho a paisagem não deu trégua. A cada curva e a cada subida que vencíamos éramos tomados por imagens lindas. Praias, montanhas, uma estrada maravilhosa. Um roteiro para ser feito sem pressa e com muitos filmes na máquina fotográfica. Contrastando com a beleza natural desse trecho de litoral, passamos pelas usinas nucleares de Angra I e II. Imponentes em seus tamanhos, não impressionam apenas por suas construções em formas futuristas. Ao se conhecer um pouco seu funcionamento descobre-se que a energia atômica seria uma maravilha se usada apenas para fins pacíficos e se soubéssemos o que fazer com seus rejeitos que deverão manter-se ativos por 4 milhões de anos! Como pode?
Ao chegar nas proximidades do Frade, uma cena engraçada: o Sobral, estacionando sua bike de fronte ao imenso portão do Frade Golf Resort para saber se havia vagas. Havia, sim: R$ 690,00 o casal, com direito ao café da manhã! Ri até não poder mais da cara dele saindo pedalando da portaria do luxuoso resort após receber a informação procurada.
Ao entrarmos na Vila do Frade, propriamente, nos deparamos com morros de favelas e um corpo de bombeiros. A Dé sugeriu pedirmos hospedagem por lá. Fomos e conseguimos, inclusive com um tratamento VIP! O pessoal do batalhão fez questão de nos tratar muito bem. Falaram que muitos viajantes passam por lá e sempre são bem vindos. Fica a dica.
Acho que longe de casa, como eles estavam (a maioria dos bombeiros com quem conversamos era do Rio de Janeiro), fica-se mais sensível. As pessoas se põem mais na pele dos outros e arrumam maneiras de afastar a monotonia de seu cotidiano. Talvez dessa maneira façam o tempo correr mais rápido para voltarem aos seus lares. Os bombeiros do Frade fizeram um enorme favor para nós, mas senti que fizemos outro, tão grande quanto, para eles. Seus nomes: Sgt. George, Cb. Lucimar (a única mulher), Cb. Leandro e Cb. Barbosa, fora todos os outros do quartel, que não chegamos a saber os nomes.
A Vila do Frade deve ter sido o local mais feio que visitamos. Seus morros apinhados de casas inacabadas e uma gente não muito bem encarada. Ironicamente – ou não – foi o local onde melhor fomos tratados, tanto pelos bombeiros, quanto no restaurante onde comemos. Novo e ainda sem nome, foi onde comemos a melhor comida também, até então. Para referência, é uma casinha vermelha simples, mas muito bem ajeitadinha, à margem direita da Rio-Santos no sentido Rio e quase em frente ao corpo de bombeiros.

5º Dia de Viagem (07/01/2005)

Planejado
Vila do Frade – Angra dos Reis
Hospedagem: Albergue da Juventude
Distância: 32km


Ocorrido
Vila do Frade - Bracuhy
Hospedagem: Albergue da Juventude R$ 17,00/ pessoa
Distância no dia – 7,5km (mais uns 10km até aldeia)
Distância acumulada – 249,4km
Média do dia: 21,6km/h (na estrada)
Máxima do dia: 32km/h (na estrada)
Tempo de pedal: 0:21h (de estrada)

Acordamos cedo no dia 07. O Sol brilhava com muita força e tomava todo o quartinho que nos foi destinado pelo Sgt. George, no quartel. Cordialmente os bombeiros nos ofereceram um café da manhã. Aceitamos, claro. Foi o mais simples e o mais gostoso até então. Conversamos com alguns soldados, arrumamos nossas coisas e partimos. No entanto, nossos sento que o contato com o pessoal do corpo de bombeiros e sua lição de acolhimento e amizade, fazia-nos diferentes e definitivamente não éramos os mesmos quatro que começaram a viagem. Nosso destino nesse dia havia mudado: era Bracuhy. Pelas informações Bracuhy era depois de Angra dos Reis, cerca de 30km. Iríamos para lá pois o albergue do centro de Angra estava lotado e teríamos que ir até Angra para ver o ônibus para a Dé.
No entanto, tudo na vida é uma questão de referência. Simplesmente ignoramos que estávamos no Estado do Rio de Janeiro onde, se falam para você que Bracuhy era depois de Angra, era tendo a capital como referência. Na realidade Bracuhy estava entre o Frade e Angra e não após Angra, como pensávamos. Pedalamos, então, espantosos 7km e chegamos ao Albergue da Juventude do Bracuhy. Salete, a dona do AJ nos acomodou em ótimos quartos. O calor estava insuportável, então, tomamos um banho, lavamos as roupas que fediam à carniça e pegamos uma carona, com a própria Salete, até o centro de Angra – de carro.
Compramos a passagem de ônibus da Dé. Ela partiria no dia seguinte por volta das 11:00 da manhã e pegaria seu ônibus no Frade. Aproveitamos para ir ao banco (absurdamente lotado), pegamos um dinheirinho, comemos um açaí (até que enfim) e voltamos de “bumba” para o AJ. No dia seguinte a parada seria dura. Do ônibus fitava a Bocaina e pensava no que e como seria.
Pensei que o dia havia terminado por aí, mas me enganei. Aproveitamos o pouco cansaço, pegamos as bikes sem os alforjes e fomos em busca de uma aldeia indígena chamada Sapucahy, que se localizava no sopé da Serra da Bocaina. Subimos, subimos, subimos...e...subimos...muito. A Dé teve uns chiliques. Empacou no meio do caminho dizendo que não seguiria mais. Coitado do Sobral que ficou tentando convencê-la a seguir. Conseguiu. Também, se ficasse parada por lá, provavelmente seria atacada não apenas pelos mosquitos (que atacavam independentemente de estarmos em movimento ou não) mas por um índio que ficou mexendo com ela quando cruzou seu caminho. O medo e a lábia do Sobral certamente a impulsionaram para cima.
Chegando à tal aldeia avistamos primeiramente um posto de saúde (fechado) e uma escola. A estrada terminava ali e localizei alguns caminhos, Segu por um que parecia ir em direção a algumas construções de pau-a-pique. Do ponto onde eu estava, via três ou quatro dessas construções à minha direita e o morro á frente encobria outras tantas. Ao meu entender eram casas, pois pareciam com casas. Me aproximei de uma delas, que mantinha a porta fechada. De uma chaminé subia uma fumaça, provavelmente lenha de um fogão. Ouvi lá de dentro uma TV ligada – adivinhem em qual canal.
À frente de uma das “casas” (seriam ocas?) que ficava paralela à esta da televisão, uma índia sentada no chão me avistou. Cumprimentei-a acenando com a mão, porém, não fui correspondido. Ela apenas me fitava.Tentei um “olá, posso entrar na aldeia?”, mas também não esboçou reação.Um sorriso e aí sim uma reciprocidade. Ela sorriu. Eu não sabia o que lhe falar e ainda à distância perguntei se havia artesanato para comprar. Incrível a assimilação das pessoas para a palavra “comprar”. A índia que antes não entendeu nem mesmo o “olá”, respondeu prontamente: “Tem”. Subi para perto dela e na mesma hora começaram a aparecer várias crianças e índios mais jovens. Saíam de um tipo de galpão que ficava no fim do caminho (não era uma rua, nem uma viela) onde estava a casa da índia. Talvez por perceber o movimento ou escutar minha voz um índio mais velho saiu de dentro da casa. Estendi a mão para cumprimentá-lo e fui correspondido. Tentei uma conversa perguntando sobre a aldeia, mas acho que não estavam muito afim, pois respondiam com monossílabos. Soube que a índia era a esposa dele, que se chamava Nelson. Todos os outros (ao menos uns 9), crianças e jovens, eram seus filhos e havia mais um a caminho, pois ela estava grávida. Nos mostraram alguns artesanatos, nada de novidade. Arcos e flechas, colares de sementes e esculturas de madeira gravada com fogo. Me senti (depois soube que não fui só eu) sendo passado para trás por aqueles indígenas. Conversavam entre si em tupi-guarani e caíam na risada. Não sei se tiravam um sarro da nossa cara. Mesmo assim os achei interessantes por suas características físicas e perguntei ao Nelson se poderia fotografá-los. “Você vai comprar alguma coisa?” “Sim.” “Então pode fotografar.” Na hora fiquei indignado, porém, após refletir talvez ele estivesse fazendo o correto. Como no livro Avenida das Américas do Carlos André, onde o autor cita uma passagem de sua viagem muitíssimo parecida, porém com nativos do Equador. As imagens dessas pessoas são usadas por todo o mundo por gente que às vezes lucra sobre elas sem pagar nada por isso. Talvez eles saibam disso e cobram, com justiça, por suas imagens.
Compramos algumas peças do artesanato, nos despedimos e seguimos encosta abaixo. Ao cruzar pela segunda vez o Rio Bracuhy, agora voltando, não resistimos a um banho em suas águas limpas e geladas.
Ao chegar no albergue dois caras tomavam cerveja na varanda. Eram dois hóspedes sul-africanos, Shaun e Craig. Não falavam uma só palavra em português, só inglês. Ficamos conversando por um longo tempo. Dois caras muito legais – pelo que consegui entender. Me senti, então, um alberguista.
Comemos à noite uma pizza horrível e fomos dormir. Apesar da pouca distância pedalada, estávamos cansados.