sábado, 6 de setembro de 2008

5º Dia de Viagem (07/01/2005)

Planejado
Vila do Frade – Angra dos Reis
Hospedagem: Albergue da Juventude
Distância: 32km


Ocorrido
Vila do Frade - Bracuhy
Hospedagem: Albergue da Juventude R$ 17,00/ pessoa
Distância no dia – 7,5km (mais uns 10km até aldeia)
Distância acumulada – 249,4km
Média do dia: 21,6km/h (na estrada)
Máxima do dia: 32km/h (na estrada)
Tempo de pedal: 0:21h (de estrada)

Acordamos cedo no dia 07. O Sol brilhava com muita força e tomava todo o quartinho que nos foi destinado pelo Sgt. George, no quartel. Cordialmente os bombeiros nos ofereceram um café da manhã. Aceitamos, claro. Foi o mais simples e o mais gostoso até então. Conversamos com alguns soldados, arrumamos nossas coisas e partimos. No entanto, nossos sento que o contato com o pessoal do corpo de bombeiros e sua lição de acolhimento e amizade, fazia-nos diferentes e definitivamente não éramos os mesmos quatro que começaram a viagem. Nosso destino nesse dia havia mudado: era Bracuhy. Pelas informações Bracuhy era depois de Angra dos Reis, cerca de 30km. Iríamos para lá pois o albergue do centro de Angra estava lotado e teríamos que ir até Angra para ver o ônibus para a Dé.
No entanto, tudo na vida é uma questão de referência. Simplesmente ignoramos que estávamos no Estado do Rio de Janeiro onde, se falam para você que Bracuhy era depois de Angra, era tendo a capital como referência. Na realidade Bracuhy estava entre o Frade e Angra e não após Angra, como pensávamos. Pedalamos, então, espantosos 7km e chegamos ao Albergue da Juventude do Bracuhy. Salete, a dona do AJ nos acomodou em ótimos quartos. O calor estava insuportável, então, tomamos um banho, lavamos as roupas que fediam à carniça e pegamos uma carona, com a própria Salete, até o centro de Angra – de carro.
Compramos a passagem de ônibus da Dé. Ela partiria no dia seguinte por volta das 11:00 da manhã e pegaria seu ônibus no Frade. Aproveitamos para ir ao banco (absurdamente lotado), pegamos um dinheirinho, comemos um açaí (até que enfim) e voltamos de “bumba” para o AJ. No dia seguinte a parada seria dura. Do ônibus fitava a Bocaina e pensava no que e como seria.
Pensei que o dia havia terminado por aí, mas me enganei. Aproveitamos o pouco cansaço, pegamos as bikes sem os alforjes e fomos em busca de uma aldeia indígena chamada Sapucahy, que se localizava no sopé da Serra da Bocaina. Subimos, subimos, subimos...e...subimos...muito. A Dé teve uns chiliques. Empacou no meio do caminho dizendo que não seguiria mais. Coitado do Sobral que ficou tentando convencê-la a seguir. Conseguiu. Também, se ficasse parada por lá, provavelmente seria atacada não apenas pelos mosquitos (que atacavam independentemente de estarmos em movimento ou não) mas por um índio que ficou mexendo com ela quando cruzou seu caminho. O medo e a lábia do Sobral certamente a impulsionaram para cima.
Chegando à tal aldeia avistamos primeiramente um posto de saúde (fechado) e uma escola. A estrada terminava ali e localizei alguns caminhos, Segu por um que parecia ir em direção a algumas construções de pau-a-pique. Do ponto onde eu estava, via três ou quatro dessas construções à minha direita e o morro á frente encobria outras tantas. Ao meu entender eram casas, pois pareciam com casas. Me aproximei de uma delas, que mantinha a porta fechada. De uma chaminé subia uma fumaça, provavelmente lenha de um fogão. Ouvi lá de dentro uma TV ligada – adivinhem em qual canal.
À frente de uma das “casas” (seriam ocas?) que ficava paralela à esta da televisão, uma índia sentada no chão me avistou. Cumprimentei-a acenando com a mão, porém, não fui correspondido. Ela apenas me fitava.Tentei um “olá, posso entrar na aldeia?”, mas também não esboçou reação.Um sorriso e aí sim uma reciprocidade. Ela sorriu. Eu não sabia o que lhe falar e ainda à distância perguntei se havia artesanato para comprar. Incrível a assimilação das pessoas para a palavra “comprar”. A índia que antes não entendeu nem mesmo o “olá”, respondeu prontamente: “Tem”. Subi para perto dela e na mesma hora começaram a aparecer várias crianças e índios mais jovens. Saíam de um tipo de galpão que ficava no fim do caminho (não era uma rua, nem uma viela) onde estava a casa da índia. Talvez por perceber o movimento ou escutar minha voz um índio mais velho saiu de dentro da casa. Estendi a mão para cumprimentá-lo e fui correspondido. Tentei uma conversa perguntando sobre a aldeia, mas acho que não estavam muito afim, pois respondiam com monossílabos. Soube que a índia era a esposa dele, que se chamava Nelson. Todos os outros (ao menos uns 9), crianças e jovens, eram seus filhos e havia mais um a caminho, pois ela estava grávida. Nos mostraram alguns artesanatos, nada de novidade. Arcos e flechas, colares de sementes e esculturas de madeira gravada com fogo. Me senti (depois soube que não fui só eu) sendo passado para trás por aqueles indígenas. Conversavam entre si em tupi-guarani e caíam na risada. Não sei se tiravam um sarro da nossa cara. Mesmo assim os achei interessantes por suas características físicas e perguntei ao Nelson se poderia fotografá-los. “Você vai comprar alguma coisa?” “Sim.” “Então pode fotografar.” Na hora fiquei indignado, porém, após refletir talvez ele estivesse fazendo o correto. Como no livro Avenida das Américas do Carlos André, onde o autor cita uma passagem de sua viagem muitíssimo parecida, porém com nativos do Equador. As imagens dessas pessoas são usadas por todo o mundo por gente que às vezes lucra sobre elas sem pagar nada por isso. Talvez eles saibam disso e cobram, com justiça, por suas imagens.
Compramos algumas peças do artesanato, nos despedimos e seguimos encosta abaixo. Ao cruzar pela segunda vez o Rio Bracuhy, agora voltando, não resistimos a um banho em suas águas limpas e geladas.
Ao chegar no albergue dois caras tomavam cerveja na varanda. Eram dois hóspedes sul-africanos, Shaun e Craig. Não falavam uma só palavra em português, só inglês. Ficamos conversando por um longo tempo. Dois caras muito legais – pelo que consegui entender. Me senti, então, um alberguista.
Comemos à noite uma pizza horrível e fomos dormir. Apesar da pouca distância pedalada, estávamos cansados.

Nenhum comentário: