sábado, 6 de setembro de 2008

9º Dia de Viagem (11/01/2005)

Planejado
São José do Barreiro - Silveiras
Hospedagem: camping
Distância: 66km


Ocorrido
Areias – Bairro dos Macacos
Hospedagem: Casa de D. Cida R$ 10,00 / pessoa com café da manhã.
Distância no dia – 53,07km
Distância acumulada – 478,31km
Média do dia: 12,8km/h
Máxima do dia: 67,3km/h
Tempo de pedal: 4:07h

Já havíamos dormido melhor. Mesmo com todo o conforto que o hotel oferecia o calor foi muito intenso e atrapalhou o sono.
Com o dia amanhecido e descansado pude apreciar com calma a beleza do prédio que funcionava o hotel. Móveis, utensílios, pinturas e a própria construção do século XVIII impressionavam e foram motivos de diversas fotos que tirei, antes do Sobral e do Edu se levantarem.
O café da manhã compensou a noite, mal dormida. Bolos, pães, bolachinhas, sucos e até o trivial café com leite estavam especialmente deliciosos. A impressão era que tudo havia sido feito e preparado apenas para nós, uma vez que não havíamos visto outros hóspedes naquele hotel.
Café tomado contas acertadas, pegamos a estrada. O sol fraco, que não intimidava, logo foi encoberto pelas nuvens e pudemos pedalar despreocupados com o horário.
Até a cidade de Silveiras rodamos 28km com muitas subidas, porém, de pouca inclinação. Pedalamos quase que o tempo todo pela pista, pois não havia acostamento. O visual era surpreendente e o mais bonito até a gora no planalto: nas curvas do alto de uma serrinha pudemos visualizar a Serra da Bocaina e do lado oposto (e bem mais alta), a Serra da Mantiqueira. O Edu que percebeu e parou para nos mostrar. De pronto, não vi a Mantiqueira. Era tão alta que pensei que fosse o céu muito escuro e carregado que o Edu mostrava. Enquanto esperávamos o Sobral encostar ficamos admirando o visual. Quando ele se aproximou ouvimos sua bike estalando no mesmo ritmo das suas pedaladas, e assim resolvemos parar na cidade de Silveiras para tentar arrumar. Não havia muito o que fazer. O barulho vinha do movimento central da bike, que era blindado, não sendo possível sua abertura para reparo. Assim, ele foi procurar uma bicicletaria. Eu e o Edu ficamos em uma padaria (aparentemente o único comércio aberto naquela cidadezinha) esperando pelo retorno do nosso companheiro e tomando um enorme sorvete. Ficamos confabulando sobre o tipo de concerto que poderia ser feito em um movimento central blindado, por um mecânico sem muito conhecimento sobre componentes mais sofisticados (talvez um pouco de preconceito sim, mas é difícil imaginar outra coisa numa cidade tão pequena onde a maior parte das bicicletas são bastante simples e seus componentes idem). Felizmente a bicicletaria estava fechada. Jogamos um pouco de óleo grosso na peça barulhenta sem desmontá-la mesmo e o barulho cessou.
Com o tempo encoberto e sem cansaço, seguimos a estrada. A próxima parada seria o Bairro dos Macacos, ainda no município de Silveiras. Algumas pessoas se impressionaram quando pedimos informações sobre como chegar à esta localidade. “Vão aos Macacos? (sic.) estão com coragem, hein?” Não demos muita importância. Sempre, durante a viagem inteira, todas as informações que pegamos com pessoas nas ruas ou em restaurantes, postos, etc., não eram corretas. Uns diziam que era impossível chegar a um determinado local – e era facílimo; outros diziam que faziam determinado percurso em 20 minutos com sua Caloicross – nós fizemos em 80. Então, como disse, não demos bola.
Começamos, então a subir. Subimos, subimos e subimos. Uma descida íngreme e cheia de curvas nos deixou muito felizes e cheios de adrenalina, mas depois dela... uma única subida. Só essa até chegar em nosso destino...com 10km de comprimento e muito íngreme. Para piorar a situação o tempo limpou. O sol estalava sobre nossas cabeças. Foi o pior trecho da viagem. A vista era maravilhosa, avistávamos a Mantiqueira e as cidades de Cruzeiro e Cachoeira Paulista, mas o cansaço era extremo. Nossa água acabou (esqueci de mencionar que meu Camelback furou em Ubatuba pois deixei que caísse no chão com água congelada dentro) e a sede incomodava muito. Boca seca e muito calor fizeram acentuar as diferenças de rendimento entre nós três. Cada um obrigado por seu limite a manter seu próprio ritmo ótimo. Numa determinada hora passamos por uma árvore (sim, não havia quase nenhuma árvore naquela estrada) e o Sobral insistiu que parássemos ali para esperar o sol baixar. Decidimos que para mim e o Edu seria ruim e seguimos ambos, deixando o Sobral. O Edu seguiu na frente sem deixar de pedalar. Eu e não agüentei e a partir de um trecho empurrei a bike. Cheguei num ponto onde o Edu havia parado. Parecia ser o ponto mais alto daquela serra interminável. Não nos falamos muito. O cansaço e a sede eram violentos. Nenhuma árvore e nenhuma sombra para nos abrigarmos sentimos que não poderíamos permanecer naquele local por muito tempo. Apenas esperar que o Sobral chegasse e partir. Após uns 15 ou 20 minutos (na verdade não sei quanto tempo esperamos) ele chegou, porém, jogou sua bike no chão e se atirou na terra também. Estava exausto. Disse que ficaria por ali para descansar. Já sabíamos que por mais que falássemos a teimosia do Sobral não o deixaria trocar de opinião. O aconselhamos a procurar uma sombra e fomos em busca de água, seguindo o caminho. Para nossa surpresa aquele não era o ponto mais alto da serra: mais subida, mais cansaço. Chegamos, então, a uma casa que ficava a beira da estrada. Era uma casa simples, com porteira de madeira a frente, uma garagem com coisas velhas ao lado, galinhas soltas e uma criança brincando. Saía fumaça da chaminé indicando um fogão a lenha aceso. Batemos palmas e da porta veio em nossa direção uma senhora, também muito simples, de pés descalços nos atender. Explicamos a situação e pedimos água. Nos trouxe muita água, bem geladinha. Não lembro de sentir tanto prazer em beber água na minha vida. Dona Rosineide era o nome daquela senhora, que como uma fada madrinha fez com que praticamente recobrássemos os sentidos. Sentia que aos poucos recomeçava a perceber as cores e os sons das coisas com nitidez. Realmente chegamos ao extremo.
Depois de algum tempo o Sobral chegou (tínhamos certeza que ele não ficaria muito tempo naquele local). Também foi servido pela Fada Rosineide e acredito que acabou com toda a água que ela possuía armazenada. Descansamos um pouquinho, agradecemos muito e seguimos adiante. Agora sim descida, ufa!
A chegar no Bairro dos Macacos uma triste impressão: não havia pousada, camping ou restaurante, nem nenhum outro lugar para ficarmos. Aparentemente. Batemos em algumas casas, mas ninguém nos indicava (nem oferecia) nada. Passamos, então, por uma casa com uma plaquinha presa ao portão: “Dona Cida – Refeições”. Cleide, filha de D. Cida, não só nos serviu três PF’s como descolou uma casa para passarmos a noite. Cobrou R$10 por pessoa com direito ao café, ali mesmo, onde almoçamos. Topamos.
Mesmo com todas as recomendações de que a casa era simples, nos assustamos com ela. Paredes feitas de uma massa parecida com pau-a-pique, porém pintadas, apoiavam um telhado antigo. Não havia forro e os cômodos (3) eram pouco ventilados pois apenas um tinha janela. As camas e o banheiro condiziam com o restante da casa. As camas por terem colchões em péssimo estado e úmidos. O banheiro, principalmente por causa do chuveiro a cerca de 1,70m de altura e com um registro revestido de borracha. Olha o choque!
Antes de nos instalarmos combinamos que desceríamos à casa de D. Cida para jantarmos um macarrão.
Enquanto nos alojávamos e tomávamos banho fui a um orelhão para ligar para a namorada. A ligação tinha um motivo especial: iríamos marcar um local de encontro em Parati. Estaríamos lá no fim de semana e ela me propôs um encontro. Adorei. No entanto ao falar com ela tive a notícia que ela não viria mais. Não esperava isso, principalmente porque a idéia partiu dela própria. Alegou que estava cansada e faria um curso intensivo de inglês. Muito ruim ouvir certas coisas. Não sei porque, mas a notícia mexeu muito comigo.
Transcrevo a seguir um trecho extraído de meu diário:
“Hoje é dia 12, ainda não pedalamos. Acordei com a auto-estima baixa e muito desanimado. Não sei como será a viagem daqui para a frente. O Sobral e o Edu já sacaram o que passa. Só os dias dirão”

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